Quando uma roupa dizia tanto como uma canção: os grandes ícones de estilo do rock
Quando uma roupa dizia tanto como uma canção: os grandes ícones de estilo do rock
09/08/2026 / Por Margarida Costa / Moda
Muito antes das tendências: as lendas do rock que ensinaram o mundo a vestir-se
De David Bowie a Freddie Mercury, passando por Stevie Nicks, Prince, Debbie Harry e Joan Jett, algumas das maiores figuras da música não precisaram de desfilar numa passerelle para mudar a forma como nos vestimos. Décadas depois, os seus guarda-roupas continuam a regressar às tendências e a inspirar novas gerações.
Há roupas que envelhecem com a fotografia onde ficaram registadas. E há outras que, décadas depois, continuam a parecer uma referência.
Quando pensamos nas grandes lendas do rock, pensamos primeiro nas músicas, nos concertos e nos álbuns que marcaram gerações. Mas basta olhar para algumas das imagens mais icónicas da história da música para perceber que o impacto destes artistas nunca terminou no som.
Muito antes de as redes sociais transformarem cada nova fase de um artista numa “era”, David Bowie mudava radicalmente de personagem. Antes de se falar tanto em moda sem género, Prince subia ao palco de saltos altos, renda e folhos. Antes de o rock chic aparecer repetidamente nas passerelles, Joan Jett já fazia do couro preto uma assinatura.
Eles não seguiam apenas a moda. Usavam-na para dizer quem eram.
David Bowie
Talvez nenhum nome represente tão bem a relação entre música e moda como David Bowie.
Ao longo da carreira, Bowie recusou a ideia de que um artista precisava de ter uma única imagem. Pelo contrário: transformou a mudança numa parte essencial da sua identidade.
Ziggy Stardust trouxe consigo cabelo vermelho, plataformas, fatos coloridos, maquilhagem e silhuetas futuristas. Mais tarde chegariam outras personagens, outros guarda-roupas e outras versões do próprio Bowie.
A colaboração com criadores como o japonês Kansai Yamamoto ajudou a produzir algumas das imagens mais extraordinárias da sua carreira, com peças arquitetónicas e proporções exageradas que pareciam pertencer tanto a uma performance artística como a um concerto. Mas talvez o mais importante tenha sido aquilo que Bowie representou: a possibilidade de usar a roupa para experimentar uma identidade sem pedir autorização.
Hoje, quando vemos artistas transformarem completamente a estética entre álbuns, a estratégia parece quase natural. Bowie percebeu o poder dessa transformação décadas antes.
Stevie Nicks
Stevie Nicks seguiu um caminho diferente.
Em vez de mudar constantemente, encontrou uma linguagem visual tão própria que acabou por se tornar praticamente inseparável da sua figura.
Vestidos longos, tecidos fluidos, mangas dramáticas, xailes, veludo, rendas, botas e tons escuros construíram uma estética romântica e misteriosa que acompanhou a cantora ao longo de décadas.
Não era apenas uma questão de beleza. As roupas ganhavam movimento em palco. Giravam, flutuavam e ajudavam a criar a personagem quase mística que o público associaria para sempre à artista dos Fleetwood Mac.
Décadas depois, basta juntar um vestido fluido, botas e um xaile para que a comparação com Stevie Nicks apareça. Quando uma estética sobrevive à própria década, deixa de ser tendência e transforma-se em assinatura.
Prince
Prince nunca pareceu particularmente interessado nas regras sobre aquilo que um homem deveria vestir.
Renda, folhos, saltos altos, transparências, fatos coloridos, camisas extravagantes e silhuetas inesperadas faziam parte do seu universo com a mesma naturalidade que uma guitarra.
Num período em que os códigos de género na moda eram muito mais rígidos, Prince apropriava-se de elementos associados tanto ao guarda-roupa masculino como ao feminino e transformava-os simplesmente em… Prince. E essa talvez seja uma das razões pelas quais a sua imagem continua tão atual.
Muito antes de as grandes casas de moda discutirem coleções sem género e de as passadeiras vermelhas celebrarem homens de saias, pérolas ou transparências, Prince já demonstrava que uma peça de roupa não precisava de determinar masculinidade ou feminilidade. Precisava apenas de representar quem a vestia.
Debbie Harry
Debbie Harry nunca precisou de escolher entre ser rebelde e ser feminina.
Enquanto vocalista dos Blondie, tornou-se uma das imagens mais reconhecíveis da cena punk e new wave nova-iorquina, misturando peças aparentemente banais com uma atitude impossível de copiar.
T-shirts, ganga, vestidos, botas, peças justas e cabelo louro platinado construíram uma estética simultaneamente despreocupada e provocadora. Era glamour, mas não demasiado perfeito. Era sensualidade, mas sem parecer criada para agradar. Era punk, mas sem obedecer sequer às regras visuais do próprio punk. É precisamente essa mistura que continua a reaparecer na moda contemporânea.
O cabelo despenteado, a t-shirt vintage, os jeans e o eyeliner que hoje fazem parte de inúmeras referências de rock chic têm raízes numa geração de mulheres como Debbie Harry.
Freddie Mercury
Freddie Mercury percebeu uma coisa essencial sobre atuar: num estádio, não basta cantar para a última fila. É preciso chegar visualmente até ela e poucas pessoas souberam fazê-lo como ele.
Ao longo dos anos, o vocalista dos Queen passou por fatos justos, padrões exuberantes, lantejoulas, peças inspiradas no vestuário militar, capas, decotes e silhuetas profundamente teatrais.
Alguns dos seus visuais mais extravagantes contrastam curiosamente com aquele que acabaria por se tornar um dos mais famosos: jeans, sapatilhas Adidas e uma simples camisola branca de alças no Live Aid, em 1985. Talvez seja essa a prova de que estilo nunca significou apenas extravagância.
Freddie conseguia transformar uma peça de roupa em espetáculo porque a verdadeira assinatura estava na pessoa que a vestia.
Joan Jett
Se algumas estrelas desta lista fizeram da transformação a sua imagem, Joan Jett fez da consistência uma arma. Couro preto. T-shirts. Calças justas. Botas. Cintos. Eyeliner escuro. Cabelo preto desalinhado. Poucos elementos, uma identidade imediatamente reconhecível.
Num universo do rock durante muito tempo dominado por homens, a imagem de Joan Jett não procurava suavizar a sua presença para corresponder ao que se esperava de uma mulher. Pelo contrário. A roupa transmitia exatamente aquilo que a música dizia: independência, atitude e uma certa recusa em pedir licença para ocupar espaço.
Décadas depois, aquilo a que tantas vezes chamamos rock chic continua a recuperar precisamente esses códigos.
Hoje, a relação entre moda e música tornou-se uma indústria dentro da própria indústria.
Uma nova era musical pode significar uma nova cor, um novo cabelo, uma estética específica, parcerias com marcas e dezenas de imagens cuidadosamente pensadas para Instagram e TikTok.
A roupa ajuda a vender uma narrativa. Mas muito antes de existir Instagram e muito antes de falarmos de personal branding, estas estrelas já sabiam que uma carreira também podia ser contada visualmente.
Bowie construía personagens. Stevie Nicks criou um universo. Prince questionava género e sexualidade. Debbie Harry misturava glamour e rebeldia. Freddie Mercury transformava o palco em teatro. Joan Jett fez do preto uma declaração.
Nenhum deles precisava de explicar a estética numa legenda. Bastava aparecer.
Talvez esta seja a parte mais fascinante.
Passaram décadas e continuamos a encontrar fragmentos destes artistas nas tendências atuais. As plataformas regressam. As transparências regressam. O couro regressa. As mangas dramáticas regressam. O estilo boémio regressa. O glam rock regressa, mas as fotografias originais continuam a ter uma força que muitas reproduções não conseguem alcançar. Porque provavelmente nunca foi apenas sobre as roupas, ra sobre a liberdade com que eram usadas.
Num mundo em que as tendências aparecem e desaparecem à velocidade de um vídeo de poucos segundos, estas figuras lembram-nos de uma diferença que a moda nem sempre consegue ensinar: estar na moda e ter estilo não são exatamente a mesma coisa.
A tendência diz-nos o que todos querem vestir naquele momento. O estilo diz-nos quem é aquela pessoa antes mesmo de ela abrir a boca.
David Bowie, Stevie Nicks, Prince, Debbie Harry, Freddie Mercury e Joan Jett compreenderam isso como poucos.
Fizeram história com a música. Mas também ajudaram a decidir como essa história ficaria vestida.