A magreza extrema voltou a estar na moda. E isso devia preocupar-nos.
A magreza extrema voltou a estar na moda. E isso devia preocupar-nos.
04/08/2026 / Por Margarida Costa / Sociedade
A magreza extrema voltou. E as redes sociais estão a aplaudir
Durante anos, acreditámos que a indústria da moda e do entretenimento estava finalmente a abrir espaço para diferentes tipos de corpo. Depois de décadas marcadas pelo ideal da extrema magreza, começaram a surgir campanhas mais inclusivas, modelos de várias silhuetas e um discurso que defendia a diversidade e a aceitação corporal. Mas, nos últimos meses, a sensação é outra.
Basta olhar para as passadeiras vermelhas, capas de revistas ou redes sociais para perceber que um corpo muito magro voltou a ocupar o centro das atenções. Ariana Grande, Demi Moore, Emma Stone, Nicole Kidman, Jenna Ortega, Lily Collins, Cynthia Erivo, Michelle Yeoh e, mais recentemente, a cantora brasileira Maiara são apenas alguns dos nomes que têm sido alvo de milhares de comentários sobre a sua aparência física.
Importa deixar uma coisa clara: ninguém pode diagnosticar uma pessoa através de fotografias. Alterações de peso podem acontecer por inúmeras razões desde questões de saúde, tratamentos médicos, stress ou simplesmente escolhas pessoais. O corpo de cada pessoa pertence apenas a si.
Ainda assim, existe uma pergunta que merece ser feita: porque é que a extrema magreza voltou a ser encarada como um ideal?
No caso de Ariana Grande, a conversa ganhou força após o lançamento de petal, o seu mais recente álbum. Em vez de as atenções se centrarem apenas na música, muitos dos comentários aos videoclipes e às atuações focaram-se quase exclusivamente na sua aparência física, alimentando um debate constante nas redes sociais.
Pouco depois, surgiu a notícia de que a artista iria fazer uma pausa na carreira, referindo sentir-se desgastada pelo escrutínio permanente. Independentemente das razões pessoais de Ariana, o caso abriu novamente uma discussão importante: até que ponto o julgamento constante sobre o corpo de figuras públicas contribui para o desgaste da saúde mental?
Mas Ariana não está sozinha.
Nas últimas semanas, inúmeras comparações entre fotografias antigas e atuais de várias celebridades tornaram-se virais. O foco deixou de ser o trabalho, os projetos ou o talento. Passou a ser o corpo.
Para quem viveu os anos 90 e o início dos anos 2000, esta imagem não é nova.
Nessa altura, a chamada estética heroin chic transformou a extrema magreza num símbolo de elegância e sucesso. Corpos muito magros dominavam campanhas de moda, capas de revistas e passadeiras vermelhas. Durante algum tempo, parecia que essa fase tinha ficado para trás.
Hoje, muitos especialistas e observadores da indústria acreditam que estamos a assistir ao regresso desse padrão, agora amplificado pelas redes sociais.
O problema já não está apenas nas revistas ou na televisão.
As redes sociais mostram repetidamente os conteúdos que mais geram interação. Quanto mais se fala de um determinado corpo, mais esse corpo aparece. Quanto mais fotografias são comentadas, mais o algoritmo as distribui.
Estudos recentes mostram que utilizadores vulneráveis a transtornos alimentares recebem significativamente mais conteúdos relacionados com dietas extremas, perda de peso, exercício excessivo e imagens que promovem padrões físicos irrealistas.
O resultado é um ciclo difícil de quebrar: quanto mais alguém procura determinado tipo de conteúdo, mais esse conteúdo lhe é apresentado.
As pessoas que aparecem nas fotografias são conhecidas.
Quem sofre as consequências, muitas vezes, não.
Adolescentes e jovens adultos crescem rodeados por imagens altamente editadas e por comparações constantes. Quando a extrema magreza volta a ser associada ao sucesso, ao glamour e à beleza, a mensagem chega rapidamente a milhões de pessoas. E é precisamente aí que reside o perigo. Não porque exista um único corpo ideal, mas porque qualquer padrão inalcançável acaba por criar pressão para quem o observa.
Precisamos de voltar a falar de saúde
É possível admirar uma artista sem transformar o seu corpo num tema de discussão pública. É possível acompanhar tendências de moda sem esquecer que saúde e aparência não são sinónimos. E é possível defender que ninguém deve ser atacado pelo seu aspeto físico, ao mesmo tempo que refletimos sobre os padrões de beleza que a sociedade continua a promover.
Talvez a verdadeira questão não seja saber quem está mais magro. Talvez seja perceber porque é que, em 2026, continuamos a acreditar que a beleza tem um único tamanho. Porque, quando um padrão estético vale mais do que o bem-estar de quem o tenta alcançar, deixamos de falar de moda e começamos a falar de um problema social.