Estamos a viver mais… ou apenas a tentar provar que vivemos?
Estamos a viver mais… ou apenas a tentar provar que vivemos?
11/08/2026 / Por Margarida Costa / Sociedade
Porque é que estamos tão obcecados por viver experiências?
Viajar. Ir a concertos. Experimentar um restaurante novo. Fazer um curso. Conhecer uma cidade diferente. Passar um fim de semana fora. Nunca pareceu existir tanta vontade de viver experiências.
Nos últimos anos, aquilo que fazemos passou a ter quase tanto peso como aquilo que temos. Para muitas pessoas, uma viagem vale mais do que um objeto novo. Um concerto parece justificar uma despesa que, noutro contexto, talvez não fizesse sentido. Um jantar especial transforma-se numa memória que permanece muito depois de a conta estar paga.
E talvez seja precisamente essa a razão pela qual as experiências ganharam tanto valor.
Durante muito tempo, o sucesso esteve muito ligado àquilo que se conseguia comprar: uma casa melhor, um carro novo, roupa, tecnologia ou objetos que simbolizavam um determinado estilo de vida. Hoje, essa ideia não desapareceu, mas mudou.
Cada vez mais, valorizamos momentos que nos façam sentir que estamos realmente a viver. Procuramos coisas que interrompam a rotina, nos deem histórias para contar e criem memórias que fiquem associadas a determinadas fases da nossa vida. Não recordamos apenas uma viagem. Recordamos quem estava connosco, aquilo que sentimos, as conversas, os imprevistos e até os pequenos detalhes que ninguém planeou. As experiências têm essa capacidade: transformam tempo em memória.
O problema começa quando viver experiências deixa de ser uma escolha e passa a parecer uma obrigação.
As redes sociais mostram-nos constantemente pessoas em concertos, festivais, praias, restaurantes, hotéis ou cidades diferentes. Existe sempre alguém a fazer alguma coisa que parece mais interessante do que aquilo que estamos a fazer naquele momento. E, sem percebermos, começamos a comparar.
Ficar em casa num sábado pode parecer pouco. Não ter planos para o fim de semana pode parecer pouco. Passar férias no mesmo sítio pode parecer pouco. É aqui que surge uma espécie de pressão silenciosa para tornar a vida constantemente memorável como se todos os dias precisassem de produzir uma história.
Partilhar momentos não tem nada de errado. Fotografar uma viagem, gravar um concerto ou mostrar um restaurante faz parte da forma como hoje comunicamos e guardamos memórias.
A questão muda quando começamos a escolher experiências pelo modo como vão parecer aos outros. Vamos porque queremos mesmo ir ou porque sentimos que “temos de ir”? Escolhemos aquele lugar porque nos diz alguma coisa ou porque sabemos que vai ficar bonito numa fotografia?
A fronteira é pequena.
E é possível estar num lugar incrível e, ainda assim, passar mais tempo preocupado com a imagem perfeita do que com aquilo que realmente está a acontecer.
Talvez a obsessão por experiências tenha também criado outro problema: começámos a associar uma vida interessante a acontecimentos grandes. Mas as memórias mais importantes nem sempre vêm acompanhadas por um bilhete de avião. Podem estar numa conversa que se prolongou até tarde. Num almoço em família. Numa tarde com amigos. Numa caminhada. Numa música que ficou ligada a alguém. Nem tudo o que nos marca precisa de ser raro, caro ou digno de publicação.
Querer viajar, conhecer lugares, experimentar coisas novas ou sair da rotina é natural. As experiências podem enriquecer-nos, ensinar-nos e aproximar-nos de outras pessoas.
O problema está em acreditar que uma vida só tem valor quando está permanentemente preenchida. Talvez o desafio não seja acumular mais momentos. Seja perceber quais fazem realmente sentido para nós. Porque uma vida cheia não é necessariamente uma vida onde acontece sempre alguma coisa. Às vezes, é simplesmente uma vida onde conseguimos estar verdadeiramente presentes naquilo que já está a acontecer.
E talvez seja esse o verdadeiro luxo: não ter mais histórias para mostrar, mas mais momentos que valha a pena recordar.