Halloween: porque é que gostamos tanto de celebrar aquilo que nos assusta?
Halloween: porque é que gostamos tanto de celebrar aquilo que nos assusta?
31/10/2026 / Por Margarida Costa / Sociedade
Entre sustos e aparências: será que vivemos mascarados o ano inteiro?
Entre máscaras, filmes de terror e tradições que atravessam gerações, o Halloween tornou-se muito mais do que uma noite de sustos. Mas o que revela esta celebração sobre os nossos medos e a sociedade em que vivemos?
Há uma noite por ano em que procuramos voluntariamente aquilo de que passamos o resto do tempo a fugir: o medo. Vestimo-nos de fantasmas, decoramos as casas com esqueletos e escolhemos filmes que sabemos que nos vão assustar. É uma contradição curiosa: evitamos o desconhecido no quotidiano, mas, quando chega o Halloween, fazemos questão de o convidar para entrar.
Celebrado a 31 de outubro, o Halloween tem raízes associadas ao antigo festival celta de Samhain e foi adquirindo diferentes tradições ao longo dos séculos. Hoje, é também um fenómeno cultural e comercial, impulsionado pelo cinema, pela moda e pelas redes sociais.
Uma das particularidades do Halloween é a liberdade de sermos outra pessoa durante algumas horas. Podemos transformar-nos numa personagem de cinema, numa criatura assustadora ou simplesmente experimentar uma identidade diferente. Mas será que precisamos realmente do Halloween para usar máscaras?
No dia a dia, também escondemos inseguranças, disfarçamos preocupações e tentamos corresponder às expectativas dos outros. A diferença é que, no Halloween, sabemos que estamos mascarados. E talvez esteja aqui uma das maiores ironias da celebração: passamos uma noite a fingir ser quem não somos, quando, por vezes, fazemos exatamente o mesmo durante o resto do ano.
Com as redes sociais, o Halloween ganhou uma dimensão cada vez mais visual. Os disfarces transformaram-se em produções elaboradas, as celebridades surpreendem com caracterizações cinematográficas e as marcas aproveitam a ocasião para lançar campanhas temáticas.
Mas, numa sociedade em que quase tudo se transforma em conteúdo, surge uma questão: celebramos porque queremos ou porque sentimos que precisamos de acompanhar as tendências? Por vezes, a pressão para ter o disfarce perfeito e a fotografia ideal pode ser mais assustadora do que qualquer filme de terror.
Talvez o mais curioso do Halloween seja a diferença entre os medos que escolhemos celebrar e aqueles que enfrentamos silenciosamente. Um fantasma assusta-nos durante segundos. Já o medo de falhar, de perder alguém, de não corresponder às expectativas ou de enfrentar uma mudança pode acompanhar-nos durante muito mais tempo. Os monstros dos filmes têm uma vantagem: conseguimos identificá-los. Na vida real, os nossos maiores receios nem sempre têm um rosto. E talvez seja por isso que gostamos tanto das histórias de terror. Durante algumas horas, o medo tem uma explicação e, muitas vezes, um final.
O Halloween não precisa de deixar de ser uma celebração divertida para nos fazer pensar. Entre abóboras, máscaras e sustos, pode também recordar-nos que sentir medo faz parte de ser humano. Afinal, os fantasmas desaparecem quando a festa termina. Mas há medos que só começam a perder força quando deixamos de fingir que não existem.