Porque é que o outono nos parece tão aconchegante? Há uma razão para querermos mantas, velas e tardes em casa
Porque é que o outono nos parece tão aconchegante? Há uma razão para querermos mantas, velas e tardes em casa
23/09/2026 / Por Margarida Costa / Sociedade
Folhas douradas, café quente e dias mais lentos: afinal, porque gostamos tanto do outono?
Chega oficialmente a 23 de setembro e traz consigo folhas douradas, dias mais curtos, bebidas quentes e aquela vontade quase automática de tornar a casa mais confortável. Mas porque é que o outono ganhou o título não oficial de estação mais cozy do ano? A resposta está entre a mudança da luz, os nossos sentidos, a nostalgia e os pequenos rituais que regressam com o frio.
Há qualquer coisa no outono que parece pedir que abrandemos. De repente, uma manta no sofá parece mais convidativa, acender uma vela passa de decoração a ritual e ficar em casa num fim de tarde chuvoso deixa de parecer um plano pouco interessante.
E este ano a mudança tem uma data muito concreta: o outono astronómico começa em Portugal na madrugada de 23 de setembro de 2026, com o equinócio a ocorrer às 00h05 UTC, 01h05 em Portugal continental. É o momento em que o Sol cruza o equador celeste em direção ao hemisfério sul e marca, astronomicamente, o fim do verão no hemisfério norte. Mas a sensação de que entrámos numa época mais aconchegante vai muito além do calendário.
Depois do equinócio, no hemisfério norte, as noites tornam-se progressivamente mais longas do que os dias. É uma mudança aparentemente simples, mas que altera a forma como vivemos a rotina.
Os finais de tarde começam a ser passados mais vezes dentro de casa e regressam elementos que durante o verão praticamente desaparecem: mantas, iluminação mais suave, bebidas quentes, camisolas, meias e aquela primeira noite em que percebemos que já não queremos deixar uma janela aberta. É aqui que nasce grande parte da estética cozy associada à estação. O conforto deixa de ser apenas visual e passa a ser uma resposta muito prática à mudança do ambiente.
Canela, café, chá, maçã, bolos acabados de fazer ou simplesmente o cheiro da chuva. A imagem mental do outono é quase impossível de separar dos aromas — e isso não é irrelevante. O olfato tem uma ligação particularmente forte à memória autobiográfica. Uma revisão científica publicada em 2023 concluiu que cheiros e sabores podem desencadear recordações nostálgicas especialmente pessoais e emocionalmente positivas. Essas memórias foram ainda associadas a sentimentos de ligação social e significado.
Até a época em que sentimos determinado aroma pode alterar a forma como o avaliamos. Um estudo sobre a canela mostrou que os participantes a consideravam mais familiar e agradável durante a época festiva do que no verão, demonstrando como aprendemos a ligar determinados cheiros a momentos específicos do ano. Talvez seja por isso que uma bebida com canela pode parecer apenas uma bebida em julho e, alguns meses depois, quase uma experiência emocional.
O outono tem uma capacidade especial para recuperar rituais. Voltam determinadas receitas, séries que revemos todos os anos, filmes para dias de chuva, roupas guardadas durante meses e hábitos que associamos a outras fases da nossa vida.
A ciência mostra que a comida também pode funcionar como um poderoso estímulo de nostalgia e que estas recordações tendem a ser predominantemente positivas. É uma das razões pelas quais o conforto do outono pode não estar apenas na temperatura de uma chávena de café. Está também naquilo que ela nos recorda.
Há ainda uma dimensão muito menos científica, mas impossível de ignorar: o outono é extremamente fotogénico.
Os castanhos, bordôs, verdes escuros e laranjas aparecem na natureza e passam diretamente para a moda e para a decoração. Os casacos regressam, as botas saem do armário e vestir-se volta a significar sobrepor peças. As folhas mudam de cor e até um passeio aparentemente banal ganha outra estética.
Depois há os pequenos prazeres: ler enquanto chove, entrar num café para fugir do frio, cozinhar algo quente, acender uma vela ao final do dia ou passar uma tarde inteira a ver filmes sem sentir que deveríamos estar lá fora. O conceito de cozy vive precisamente disso. Não é apenas estar confortável é transformar esse conforto num momento.
Há, no entanto, outro lado da mudança de estação. A diminuição das horas de luz pode afetar o humor e a energia de algumas pessoas e, em casos mais intensos, está associada à perturbação afetiva sazonal, uma forma de depressão com padrão sazonal. Por isso, a ideia de que o outono deixa automaticamente toda a gente mais feliz ou tranquila seria uma simplificação.
O que a estação oferece é um conjunto muito particular de estímulos: menos luz, temperaturas mais baixas, mudança de cores, sabores e aromas sazonais e o regresso de rotinas familiares. Quando esses elementos se cruzam com memórias positivas, criam a combinação perfeita para aquilo a que hoje chamamos cozy. Talvez seja essa a verdadeira magia do outono. Não são apenas as folhas a mudar de cor ou as camisolas a regressar ao armário. É a sensação de que, depois de um verão vivido para fora, chegou novamente a altura de tornar confortável aquilo que está cá dentro.