Porque é que tantas mulheres estão obcecadas com Heated Rivalry?
Porque é que tantas mulheres estão obcecadas com Heated Rivalry?
25/08/2026 / Por Margarida Costa / Sociedade
Não vivemos a história deles, mas sentimos tudo: o fenómeno Heated Rivalry
Há séries de que gostamos e há séries que nos fazem sentir demasiado. Heated Rivalry parece pertencer à segunda categoria.
Baseada no livro com o mesmo nome, de Rachel Reid, a série acompanha Shane Hollander e Ilya Rozanov, dois jogadores de hóquei rivais que, longe do rinque, vivem uma relação secreta que se vai tornando cada vez mais difícil de separar dos sentimentos.
E há um dado que ajuda a perceber a dimensão do fenómeno: cerca de 70% da audiência da série é feminina. Nesse público estão mulheres heterossexuais, mas também, naturalmente, mulheres queer, para quem a representação LGBT+ e os temas abordados podem ter outras formas de identificação. Mas talvez o mais interessante seja perceber que o sucesso de Heated Rivalry não depende de o público ter a mesma orientação sexual das personagens.
É aqui que Heated Rivalry parece ter acertado em cheio.
Podemos nunca ter sido dois jogadores profissionais de hóquei obrigados a esconder uma relação durante anos, provavelmente não, mas sabemos o que é gostar de alguém e ter medo de admitir, sentir ciúmes, não saber o que a outra pessoa sente, querer ser escolhido ou ter medo de perder alguém.E são precisamente essas emoções que aproximam Shane e Ilya do público.
Há momentos em que um olhar diz aquilo que nenhuma das personagens consegue verbalizar. Outros em que o medo fala mais alto do que aquilo que realmente querem. E há aquela frustração tão familiar de vermos duas pessoas claramente apaixonadas a demorarem demasiado tempo a admitir o óbvio. É difícil não reconhecer alguma coisa.
Identificação não significa necessariamente olhar para uma personagem e pensar “ela é como eu”. Também pode ser pensar: “eu já me senti assim.”
Para algumas mulheres queer, essa identificação pode passar também pela experiência de esconder sentimentos, pelo receio da reação dos outros ou pela importância de ver uma relação queer ocupar o centro de uma grande história romântica. Para muitas mulheres heterossexuais, a ligação poderá acontecer noutro lugar: na vulnerabilidade, no desejo, na insegurança, no medo de amar mais do que a outra pessoa ou simplesmente naquela sensação universal de querer alguém que parece impossível. Experiências diferentes podem, afinal, chegar à mesma emoção.
E talvez seja essa uma das razões pelas quais a história funciona tão bem.
Shane e Ilya são personagens queer, e isso é fundamental para a narrativa, mas não é a única coisa que os define. São competitivos, ambiciosos, teimosos, inseguros, divertidos, apaixonados e, por vezes, péssimos a dizer aquilo que realmente sentem. Quanto mais os conhecemos, menos estamos preocupados em definir que tipo de romance estamos a ver. Estamos simplesmente a pensar: por favor, fiquem juntos.
Talvez a obsessão feminina por Heated Rivalry não precise de uma explicação demasiado complicada.
Uma boa história consegue fazer-nos sentir emoções que reconhecemos, mesmo quando a vida das personagens não se parece em nada com a nossa.
Porque não precisamos de amar da mesma forma, ter a mesma orientação ou viver a mesma história para reconhecer o medo de perder alguém, a necessidade de ser escolhido ou a felicidade de finalmente sermos amados de volta. E talvez seja precisamente isso que Shane e Ilya conseguiram fazer tão bem: mostrar que podemos chegar ao amor por caminhos completamente diferentes e, ainda assim, reconhecer exatamente aquilo que se sente quando lá chegamos.