“Verity” chegou ao cinema: valeu a espera?
“Verity” chegou ao cinema: valeu a espera?
04/10/2026 / Por Margarida Costa / Opinião
OPINIÃO | Verity” chega ao cinema entre tensão, obsessão e algumas surpresas
“Verity” chegou aos cinemas portugueses a 1 de outubro, levando para o grande ecrã o thriller de Colleen Hoover que conquistou milhões de leitores. Já tinha lido o livro e, por isso, esta era uma das adaptações que mais curiosidade tinha em ver. No final, não foi exatamente aquilo que tinha imaginado enquanto lia, mas talvez tenha sido precisamente isso que tornou a experiência mais interessante.
A história acompanha Lowen Ashleigh, uma escritora que recebe a oportunidade de terminar os livros de Verity Crawford, uma autora de sucesso que ficou incapacitada depois de um acidente. Para trabalhar no projeto, Lowen instala-se temporariamente na casa da família Crawford, onde encontra um manuscrito autobiográfico de Verity com revelações perturbadoras sobre o passado da família.
A partir daí, tudo começa a tornar-se cada vez mais estranho e a pergunta deixa rapidamente de ser apenas “o que aconteceu?” para passar a ser “em quem podemos realmente acreditar?”. E foi precisamente esse lado do filme que mais gostei.
Para mim, “Verity” funciona especialmente bem quando não tenta fazer demasiado. A casa, os silêncios, os olhares e a sensação de que existe sempre alguma coisa escondida criam um ambiente desconfortável. Há cenas em que sabemos que provavelmente alguma coisa vai acontecer e, ainda assim, é a espera que nos deixa mais presos ao ecrã.
Mesmo conhecendo a história, consegui sentir novamente essa tensão. Claro que algumas revelações já não tiveram em mim o impacto que teriam em alguém que nunca leu o livro, mas o filme conseguiu compensar isso através da atmosfera e da forma como constrói determinados momentos. É um thriller que nos obriga a estar atentos aos detalhes e a desconfiar constantemente daquilo que estamos a ver.
Uma adaptação nunca precisa de ser uma reprodução exata do livro e “Verity” deixa isso bastante claro. Há várias alterações. A família Crawford é simplificada, alguns elementos relacionados com Lowen desaparecem e a relação entre Lowen e Verity ganha uma proximidade diferente daquela que encontramos no livro.
Confesso que algumas mudanças me causaram alguma estranheza ao início. Quando já temos uma determinada versão da história construída na cabeça, é inevitável comparar. No entanto, à medida que o filme avançou, consegui separar as duas versões. Algumas decisões funcionam melhor no cinema e ajudam a transformar uma história que acontece muito dentro da cabeça de Lowen em algo mais visual. Ainda assim, houve partes do livro que gostava de ter visto no filme e momentos que, para mim, mereciam um pouco mais de desenvolvimento.
O final era uma das partes que mais queria ver adaptada e não me desiludiu.
O que mais gosto em “Verity” é precisamente o facto de o final não nos entregar uma resposta confortável. Quando pensamos que finalmente percebemos o que aconteceu, surge informação suficiente para nos fazer voltar atrás e questionar tudo. No filme, essa sensação continua presente e, para mim, era essencial que assim fosse.
Gostei do desfecho precisamente porque não tenta decidir por nós. Saí da sala a pensar novamente nas diferentes versões da história e a tentar perceber em qual acreditava mais. E, mesmo conhecendo o livro, voltei a fazer a mesma pergunta: afinal, Verity estava a dizer a verdade ou estava a escrever aquilo que queria que os outros acreditassem? Para mim, é esse desconforto que faz o final funcionar. Não precisamos de sair do cinema com uma resposta definitiva. Precisamos de sair com vontade de discutir o que acabámos de ver.
E é impossível não falar das interpretações.
Anne Hathaway é, para mim, o grande destaque. A sua Verity consegue ser magnética e inquietante ao mesmo tempo. Há momentos em que praticamente não precisa de falar para nos deixar desconfortáveis, e gostei especialmente da forma como pequenos olhares e movimentos nos fazem procurar pistas constantemente.
Dakota Johnson funciona bem como Lowen, com uma interpretação mais contida, enquanto Josh Hartnett consegue manter Jeremy suficientemente difícil de interpretar para nunca termos a certeza absoluta das suas intenções. É sobretudo a dinâmica entre os três que ajuda a sustentar o filme e a sensação de que ninguém naquela casa é completamente transparente.
No geral, “Verity” foi uma adaptação que me surpreendeu pela positiva. Gostei da tensão, da atmosfera, da forma como o suspense foi construído e, principalmente, de o filme ter conseguido preservar a dúvida que está no centro da história. Não lhe dou cinco estrelas porque algumas mudanças não me convenceram totalmente e senti que determinados momentos poderiam ter sido mais desenvolvidos.
Mas a avaliação Safira é: 4,5 estrelas porque conseguiu uma coisa que, para mim, era fundamental: mesmo sabendo onde aquela história podia chegar, manteve-me presa ao ecrã e fez-me sair do cinema novamente a questionar a verdade. E num filme como “Verity”, talvez não existir uma resposta definitiva seja precisamente a melhor parte.